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A transmissão é um método intuitivo de apreensão directa, não-verbal da essência das questões da meditação e do auto-conhecimento. O Grande Ensinamento não é um ensinamento, pois não existe um grande ensinamento sobre o sonho, a meditação e a morte, porque não existe um corpus de conhecimento sobre estas questões; também não é uma técnica de aprendizagem, só temos de actualizar o nosso conhecimento ( o universo e o cosmos é um sistema organizacional e informacional, fruto da aprendizagem permanente, a inteligência, a consciência e a aprendizagem são essenciais ao cosmos). O Grande Ensinamento motiva o potencial de auto-descoberta daquilo que já existe em cada um e potência a experiência directa. As religiões são uma sistematização ritual que se afasta do Grande Ensinamento; os ditos fundadores, por exemplo, Cristo ou Buda, nunca fornecem ima doutrina, mas uma prática, ou como dizem os gregos, “Homem conhece-te a ti mesmo...”. Todas as vezes que se inicia uma aventura de conhecimento do Grande Ensinamento, parte-se do zero; a transmissão faz-se pelo escutar e não pelo ouvir ( enquanto pensamos não escutamos), a transmissão é não-verbal, o Grande Ensinamento dá-se por forma não-verbal. Os cinco sentidos são processadores e metabolizadores de nutrientes para a biologia do corpo; a cultura é uma agricultura, é produtora de nutrientes, tal como as espiritualidades, alimenta-nos a “alma”.
O cérebro e o SNC precisam de um corpo para se auto-transportarem e uma sociedade para se protegerem; o cérebro é moldado pela aprendizagem inata e adquirida (socio-cultural) e daí resulta a auto-imagem, que é uma construção imaginária do que somos, e onde se pode observar a formação da auto-imagem é nos sonhos, através do eu onírico, aí sabemos o que somos na realidade; a auto-imagem selecciona um conjunto de experiências que tendem a organizar-se como sensação de “eu”; do ponto de vista do Grande Ensinamento, o corpo não traz problemas, mas sim a auto-imagem, aquilo que diz “eu”, ou auto-imagem psicomental, identidade, personalidade ou auto-consciência. O cérebro é moldado pelo passado, presente e pelas expectativas da auto-imagem ou futuro; porque é que a estrutura fantasmática do “eu” luta pela sua sobrevivência, porque é que se torna um écran entre o mundo e o indivíduo ? ( o mundo chega-nos através da estrutura da auto-imagem, a relação eu-mundo é diferente da relação cérebro-mundo). O cérebro precisa de criar relações de grupo para ser reconhecido, através da auto-imagem holográfica ou “eu”, que tem a fantasia de que evolui; o “eu” acredita que tem “futuro” e que é “imortal”, o cérebro sabe que é mortal; quem se apropria do Grande Ensinamento e o transforma em religiões é a auto-imagem, que é uma estrutura artificial produzida pelo cérebro, é o eu psicológico; o lado materno natural é o cérebro, o lado masculino artificial é o eu psicológico fantasmático, capaz de tudo para manter as suas fantasias; o cérebro utiliza pulsões; quem metaboliza é o cérebro psico-motor ou instintual ( inteligência visceral). A auto-imagem é o produto, ou segregação, do cérebro face à pressão do meio; o cérebro trabalha com memórias de aprendizagem ( Reich e as memórias fantasmáticas que se acumulam no sistema muscular, ou seja, o cérebro não é o único gestor da memória; toda a experiência conflitual é descarregada pelo cérebro no sistema muscular); o nosso problema é a memória fantasmática ligada à auto-consciência e ao eu psicológico; a interpretação dos factos é o primeiro aspecto na formação da memória fantasmática ( condicionamento, comparação, juízo de valor, reacção); o cérebro organiza-se segundo os sulcos de experiência ou hábitos inscritos nas redes neuronais, que podem ser modificadas; a imagem que temos do mundo pode ser modificada, rompendo o condicionamento anterior, podendo ser auto-transformada.
O eu fantasmático é o padrão comparativo de todas as coisas, com a nostalgia da unidade, mas na relação eu-outro ou eu-mundo ( percepção dual), estou sempre a negar a unidade ou totalidade das coisas, porque o eu auto-centrado não concebe o outro como fazendo parte de si mesmo, mas separado de si, estranho e diferente de si; o eu psicológico constrói uma personalidade (máscara, persona, sombra) e nada sabe do que é ser INDIVÍDUO, porque estabelece sempre uma separação com o mundo; a matriz unitiva e intuitiva é sempre negada pelo eu psicológico; o “eu”, por definição, estabelece sempre a diferença compulsiva de si em relação a tudo o mais, estabelecendo uma pulsão conflitual e agressiva em relação ao outro e ao mundo; o cérebro cria uma protecção que é o psiquismo, projectando fora de si mesmo toda a sua agressividade; o eu psicológico projecta-se no tempo porque imagina que é imortal, produz um tempo não cronológico, não objectivo mas subjectivo, projecta-se no futuro; o mecanismo de apropriação do “eu” diz-nos que quando não tenho, quero, e quando tenho, tenho medo de perder; o tempo psicológico é sempre fantasmático, é uma projecção do eu psicológico, que é basicamente possessivo e agitado.
Id (cérebro psicomotor e metabólico) Ego (cérebro) Super Ego (o que eu psicologicamente gostaria de ser) Cérebro = tempo real Eu Psicológico = tempo psicológico ( projecção no tempo psicológico)
O que é a Atenção ? A atenção não é concentração, a atenção tende a ligar-nos à totalidade sem exclusão; interessa-nos a consciência envolvida no processo do sonho, meditação e morte; o eu psicológico tem uma obsessão de continuidade e não nos permite estudar estados de ruptura; o eu psicológico tem pavor fóbico da descontinuidade e do findar das coisas ( medo da morte). Todo o nosso equipamento cognitivo ( pensar, sentir e agir) está inscrito na Consciência propriamente dita, e a biologia deixa de ser um equipamento estático-evolutivo. A atenção é observação sem escolha e vontade de alteração, sem interferência na coisa observada, observar e estar no processo sem interferir e sem nada excluir, ficar em estado de atenção ao real, descobrindo as características do espelho, sem dualismo nem separatividade. O pensamento é uma reacção da memória fantasmática; o cérebro parasitado pela actividade do eu psicológico não tem espaço para as experiências de descontinuidade; o eu psicológico apresenta “coerência” porque se baseia nas redes neuronais, é um fantasma que parasita o cérebro e as estruturas de aprendizagem simbólica. O pensamento dirigido, ou concentração, não é Atenção; a concentração é uma forma de distracção e de exclusão, enquanto a atenção tende a ligar-nos à totalidade; a atenção não é exclusão mas inclusão; a atenção para parar o processo associativo do pensamento ainda é concentração; na atenção não se pode excluir nada, na verdadeira observação nada é excluído, e não se pode fazer nada; a atenção é a observação do processo sem nada excluir dele, estando presente sem interferir no processo de auto-observação do “filme”; deixo de ser actor do “filme”, desenvolve-se a Percepção não-dual, integrada, e a Consciência propriamente dita, ou real, começa a surgir além das representações; para observar o sonho, tenho de levar para o sono o estado de Atenção; o sonho é a incapacidade de observar o estado de sono, tal como o pensamento associativo é a incapacidade de estar em atenção durante a vigília; a meditação não muda nada, reconhece as coisas tal com são; primeiro, descubro que quero mudar o que observo, segundo, devo deixar fluir as coisas, sem querer mudar nada, auto-observando a actividade psicomental, sem interferir nela; o observador que não interfere é como um espelho, tudo se reflecte nele e nada o contamina; o fundo de Consciência real é um fundo incriado em nós; tudo é reflexo no espelho que é a Consciência, e o estado de Atenção leva-nos àquilo que é essencial em nós; nós somos uma criação desse fundo, que é capaz de criar sem ser afectado por isso; essa natureza incriada em nós, configura e projecta na sua superfície o que se chama indivíduo e reabsorve-o sem ser afectada ( temos de descobrir a nossa natureza-espelho); descubro, na observação totalizante, a imensa energia-consciência, e é apenas parte dessa imensa energia que me configura, existo porque sou configurado por essa energia-consciência subjacente; morre-se por retirada dessa consciência-energia, há uma desconfiguração, taal como se passa no universo, as forças que modelam o micro e o macrocosmos são as mesmas, tudo é configuração da Consciência-Energia Fundamental; é possível dormir sem sonhar, viver na vigília em estado de Atenção permanente, vivendo a relação directa da consciência-energia com o cérebro e o SNC, suprimindo a mediação da consciência psicológica; a Consciência Fundamental e o cérebro são um só; a auto-observação é o melhor relaxamento.
Ao adormecer em estado de Atenção dá-se um efeito de fusão entre o observador e a consciência-energia, deixando inactiva a consciência psicológica, não sonhamos, o tempo onírico desaparece, e acordamos com a plenitude de sermos configurados pela consciência-energia fundamental, sem estar presente a consciência psicológica, e tem-se a sensação de nascer naquele momento, há uma experiência directa de nascimento imaculado das coisas, como se fosse a primeira vez; e o sono passa a ser um processo meditativo sobre a consciência-energia fundamental, tal como a morte , sem que o eu psicológico esteja presente; se aprendo a adormecer sem consciência psicológica, aprendo a morrer sem a interferência da consciência psicológica; cada um de nós nasce, vive e morre sozinho.
O sonho da consciência psicológica é ser “Deus”, e cria a noção dos deuses por necessidade de justificar o seu próprio crescimento e propósito no tempo; Deus é intríseco a cada um de nós, a consciência-energia é intrínseca ao universo, e partilhamos a própria característica divina do universo. A Prática não se destina a obter resultados, mas a descobrir a verdade sobre uma coisa, enquanto o “exercício” destina-se a obter “resultados”; o auto-conhecimento não é um exercício para obter resultados; no exercício está sempre envolvida uma tensão, e a tensão bloqueia qualquer tipo de experiência; as práticas de auto-conhecimento são desinteressadas; as práticas mais simples são as mais eficazes. As imagens hipnagógicas provocam o efeito de identificação que é o sono, têm uma nitidez, clareza e colorido completamente diferentes da corrente associativa normal. Estas imagens são um quadro para o qual se pode entrar como entramos no sonho, é uma janela por onde podemos entrar e seguir viagem ( características dos contos de fadas, componente feérica fortemente atractiva). O auto-conhecimento é o conhecimento dos processos internos; o importante é a viagem e não tanto a obtenção de resultados; o auto-conhecimento é uma viagem, o percurso sou eu, é um percurso sem caminhos, nós somos a viagem que, aparentemente, não vai a parte nenhuma.
A visualização é um acto de criação no campo da consciência, a visualização está ligada à sensação de, o SNC reage à criação visualizada, o que se cria recebe o estímulo do SNC, a visualização criada é real para o cérebro, mas quando imaginamos não é real para o cérebro. O ritmo da respiração mantém-nos presos a uma determinada percepção da realidade; há uma relação directa entre respiração e percepção; o ritmo cardíaco e a respiração estão ligados, e durante as práticas, são mais lentos; o ponto de apoio para a experiência da consciência alargada é o corpo; o ritmo respiratório lento é importante para o adormecer e a morte. O eu psicológico nunca pode conhecer a Consciência propriamente dita, porque é uma estrutura fantasmática, baseada no passado, exterior à própria consciência; o cérebro trabalha com os sentidos, a auto-imagem é os óculos do cérebro.
PURA PERCEPÇÃO
(não fragmentada)
“observador” ------------------------ * -------------------------- “coisa observada”
ATENÇÃO ( espaço de auto-observação)
(observamo-nos a nós próprios, observamos aquilo que é visto e quem observa, mantendo o espaço entre o observador e a coisa observada; tenho de saber quem sou eu, quem é o observador; se eu não sou as imagens fantasmáticas no processo de adormecer, nem o observador, quem sou eu ? o observador não desaparece enquanto houver dualidade; estou apenas interessado no espaço de observação ou Atenção, que não interfere com o observador e a coisa observada) Quem é que constrói esta espaço de auto-observação, esse puro espaço de Atenção ? Quando estou no espaço de atenção existe silêncio, claridade, capacidade de percepção, luminosidade, compaixão, é uma mutação do campo de percepção, e este espaço é o mesmo no limiar da morte, têm-se a experiência directa do Puro campo de Consciência, o que está por trás de todas as configurações manifestadas e ilusórias.
É a pressão da Consciência que faz a sofisticação do cérebro e não a evolução natural; as escolas de Mistérios trabalhavam geneticamente o cérebro para maior expressão da Consciência, pressionando-o e possibilitando a mutação cerebral e da célula nervosa. A consciência psicológica é um espelho estilhaçado ( percepção fragmentada); a auto-imagem é a nossa ignorância fundamental projectada na consciência psicológica pelo cérebro; o observador é sempre o mesmo, o que varia é o nível de observação segundo pontos de vista diversos. A Atenção não-fragmentada não transforma tudo em passado ( cérebro arquivista), porque tudo acontece no presente, na Pura Percepção. A percepção está entre o cérebro arquivista ( a história, a biblioteca universal) e a fantasia e a simbolização ( eu psicológico fragmentado). Quando o “observador” se relaciona com alguma coisa, tem o modo operativo cerebral ou psicológico; o “observador” é sempre o mesmo e usa três equipamentos : cérebro, campo psicológico e Atenção; não há observador em mim, mas Pura Percepção em mim; há a ilusão de “observador” quando a percepção se identifica com o sistema de observação da realidade; o acto de percepção é sempre o mesmo :
PERCEPÇÃO + EQUIPAMENTO DE OBSERVAÇÃO= “Observador”
Na Pura Atenção ( na atenção e na percepção dualista há “observador”) não há observador; a Consciência-Energia é a matriz de toda a percepção ou Pura Atenção; a Consciência é a Pura Percepção, a natureza intrínseca da Consciência é a Percepção (não precisa de observador nenhum) não identificada com os sistemas de percepção, porque tudo é Consciência. A nossa natureza é pura Consciência e pura Energia. A transmissão é feita pelos méritos dos Instrutores e não do monitor local, outorgando algo de libertador para os membros do grupo; os Pais da Filiação fazem parte do espaço-tempo em geral e de cada um de nós, dando um influxo ao Trabalho, numa benção e bem-aventurança libertadoras e auto-realizadora, vivida desse estado de consciência vasta dos Pais da Filiação, dispensando a vasta luz iluminadora; instalam poderes de consciência por transmissão; essa outorga dá-se e a prática torna-se mais efectiva O Trabalho é uma encarnação do não-tempo no tempo; à medida que a Consciência se instala, a noção de tempo perde importância, mas é no tempo que temos de realizar essa instalação; o tempo do nosso trabalho é o tempo do nosso corpo, é o tempo que nos foi dado para o impossível, que é a nossa auto-realização iniciática, mas o essencial do trabalho dá-se no não-tempo. O observador só existe quando existe um percepção dualista; quando há Pura Percepção, o observador desaparece, eu e o espaço somos uma e a mesma coisa, o meu campo de consciência é igual à totalidade do espaço, e como o espaço é infinito, há uma pura experiência do espaço total como Pura Consciência; a morte não existe e o espaço também não; o estado de ignorância tem a ver que é ilusória a experiência do espaço, porque a consciência pessoal é igual à Consciência Total. V.Q. |