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HERMES OU O MISTÉRIO DO VERBO ENCARNADO |
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Desde sempre considerado como uma divindade enigmática, as fontes mais antigas referem Hermes ao mundo subterrâneo, através do qual ele conduz as almas depois da morte, seja ela natural ou iniciática.
Nas mais recentes, Hermes é também o deus das trocas, dos percursos e dos pontos em que se encontram os caminhos, deste e de outros mundos. É igualmente mensageiro celeste, aquele que transmite a revelação sussurrada pelos deuses aos homens. Deus do percurso (terrestre) e da viagem (celeste) da alma, Hermes foi também assimilado, já numa fase tardia de culto, ao deus egípcio Thot, o da cabeça de íbis, mestre da sabedoria, embora tudo indique que tanto um como o outro, tal como o Mercúrio dos romanos, designem o mesmo princípio arquetípico, expresso em contextos culturais diferentes. Embora a origem do deus Hermes e dos seus atributos se percam na noite dos tempos, envoltos numa multiplicidade de formas simbólicas, mas com conteúdos e funções idênticos, o certo é que na mais recuada mitologia egípcia, Thot não é apenas uma divindade estreitamente relacionada com a sabedoria e os poderes mágicos, mas também juiz, pronto a julgar e no pesar das almas, aquilatando o seu valor em termos de consciência de si-mesmo (ponto de partida da Consciência real ) e não da mera e efémera actividade psicológica, habitualmente causadora de perturbação vária na universal economia das coisas. Isso acontecia quando se reuniam os tribunais divinos, referem os mitos, onde ocasionalmente podia ser substituído por Maat, encarnação da ordem cósmica. Escriba divino, Thot é igualmente considerado como o inventor da escrita e um dos criadores do mundo pelo poder do seu verbo. Na época helenística, após a conquista do Egipto por Alexandre o Grande, época em que se produz o sincretismo religioso greco-egípcio, Thot vai ser cada vez mais assimilado a Hermes no seu papel de psicopompo, ou condutor da almas, e de mestre dos Mistérios. Neste contexto mais alargado, Hermes-Thot torna-se o guia, o princípio condutor da vida depois da vida, da demanda espiritual e das metamorfoses alquímicas. Nesta sua função de “mestre interior”, ele guia os homens na “descida aos infernos”, acompanha-os, ajuda-os, mostra-lhes a via a seguir para atingir a caverna das iniciações. É conhecido igualmente por ser o deus do sonho, pois a morte iniciática era considerada como um sono dos sentidos, prelúdio do despertar da verdadeira percepção e das ilusões do espaço e do tempo. Era, portanto, ele que durante o sono produzia – e continuaria a produzir – os sonhos iniciaticamente significativos. Ele preside, assim, desde a mais remota antiguidade, ao ritual da morte e da ressurreição, guiando, pela sua própria mão, os candidatos à iniciação, assinalando pela sua presença a importância decisiva do “segundo nascimento”, qual eclosão da crisálida, que faz emergir uma natureza humana de tipo novo, já antes latente. É daqui que nos chegam também ecos e imagens relativos ao mito iniciático de Hiram – outra das formas arquetípicas de Hermes – mito fundador da Franco-Maçonaria. Não surpreende, portanto, que ele, Hermes-Thot, seja designado, mesmo antes de Cristo, como mensageiro da boa nova (Evangelos) e mediador (Mesitês), anunciando e mediando a descida do sagrado sobre a terra, na pessoa dos avatares divinos e do iniciado, mais especificamente na sua consciência psicológica em percurso de (trans)formação. Mais, ele era não apenas mensageiro divino entre os gregos; era também porta-voz de Zeus, o deus dos deuses, senhor do céu e, no homem, o princípio monádico, a unidade fundamental da Consciência e das suas criações, princípio oculto pela luz inefável e, por isso, instância última da iniciação. Diz o hino a Zeus de Cleanto, três séculos antes de Cristo : “Salve, tu, o mais glorioso dos Imortais, tu que és designado sob tantos nomes diversos, Zeus, eternamente todo-poderoso, tu, que és, o autor da Natureza, e que governas com lei todas as coisas”. Ele, intermediário de Zeus, anunciava, deste modo, a descida ordenada do transcendente, mediando e facilitando a sua instauração na alma e no corpo do iniciado – indivíduo em demanda do sagrado e preparado para isso por uma escola de Mistérios – concebidos ambos, corpo e alma, como templo sacralizado, onde se podia escutar, num silêncio íntimo, a voz do deus. Seria um erro, pois, considerar as manifestações de Hermes como meras figuras de fantasia mística, produtos de imaginários sem freio ou resíduos de ignorâncias obscuras. Ele, Hermes, é certamente muito mais do que isso. Diz o Poimandrés, a propósito, nas palavras de Hermes-Trimegisto : “ Um dia, quando estava a reflectir sobre os seres, e o meu pensamento se deixou arrebatar e planar nas alturas, enquanto os meus sentidos corporais estavam suspensos – como acontece àqueles que são possuídos por um profundo sono ou por uma fadiga do corpo – pareceu-me que se apresentou diante de mim um ser de imensa estatura, além de toda a medida, que me chamou pelo nome e disse : “ Que queres tu ver e compreender e pelo pensamento aprender a conhecer ? E eu exclamei : “ E tu quem és? “ -“Eu”, disse ele, “sou Poimandrés, o Noûs da soberania absoluta ( e que comunica o conhecimento do Pai). Eu sei o que desejas no fundo de ti mesmo e digo-te que nunca deixarei de estar contigo2. E eu disse, então: “Eu pretendo ser instruído sobre os seres, compreender a sua natureza, conhecer Deus, enfim! Ó, como desejo escutar-te”. E ele respondeu-me : “Guarda bem no teu intelecto o que te vou ensinar e eu instruir-te-ei”. Após ouvir estas palavras, ele, o Noûs, mudou de aparência e subitamente tudo se abriu diante de mim e eu vi uma extensão sem limites, tudo tornado luz, prenhe de serenidade e bem-aventurança. E vendo-a, fui tomado de amor por ela”. Estas palavras e imagens de sincretismo iniciático foram consignadas na época alexandrina no Corpus Hermeticum (herdeiro da tradição do Nilo, da filosofia grega e das escolas de Mistérios orientais) e, em particular, pela alquimia, na Tábua de Esmeralda. Como Thot-Hermes ou como Hermes Trimegisto (o três-vezes-grande), o deus é, então, aquele que inicia à gnose, ao conhecimento verdadeiro e, ao mesmo tempo, é o mestre da alquimia e de todas as práticas teúrgicas e do conhecimento de si-mesmo. Seja como for – o Hermes (grego), o Thot (egípcio) e o Mercúrio (romano), entre outros – constituem aquele princípio de inteligência cósmica (expressão da Consciência-Energia primordial) implicada na criação do universo (Macrocosmos) mas que também se exprime, por individuação, no humano (Microcosmos). Confere, deste modo, ao indivíduo, uma vez que este seja conhecedor, por experiência directa, do Si-Mesmo ou do princípio gnóstico que o forma e que o habita – o Hermes de ca um – toda a sua significação como navegador ousado entre dicotomias que o desafiam : o Céu e a Terra, o Sol e a Lua, a Luz e a Sombra, o Supra-sensível e o Sensível. Ele, o Hermes arquetípico, identifica-se, assim, com a realidade mais profunda do indivíduo, da sua existência autêntica – de facto, a única real e perene – ser luminoso que os gregos designaram como o Anthropos, o homem eterno, concebido e desejado pelo pensamento demiúrgico, que criou à sua imagem e semelhança. É ele o princípio universal, inteligente e sacralizado, que permite estabelecer no mundo meios de comunicação, mediação e relação, espiritualmente significativos, assim como correspondências, símbolos e analogias que auxiliam o indivíduo na compreensão culminante das coisas. É assim que a chamada Lei das Correspondências constitui, por esta via, um dos instrumentos privilegiados do conhecimento hermético e um dos seus conceitos fundamentais. Aplicada à relação Macrocosmos/Microcosmos ou à misteriosa Lei das Signaturas, ela permite tornar inteligíveis e estabelecer equivalências entre as formas do visível e do invisível, do orgânico e do inorgânico, da vida e da morte (e assim por diante), funcionalizando instâncias, que embora opostas, se complementam – “O que está em cima é como o que está em baixo” e vice-versa – ou descobrindo de que modo operam as forças criadoras que modelam a natureza pela via da semelhança. Regressemos ao mito, descrição de acontecimentos primordiais e de antigos ritos. Um hino homérico sobre a Infância de Hermes descreve os seus feitos e peripécias entre os grandes deuses do Olimpo. Era, então, concebido como Hermes-criança, à imagem de outros heróis solares. No mundo da cultura grega, Hermes também era por vezes figurado com duas caras opostas, à semelhança do deus latino Janus. era então considerado, quase em termos profanos, como uma divindade dos caminhos e protector dos viajantes, guardião das portas que se edificam no mundo e também mensageiro dos deuses. O seu nascimento, segundo a simbólicas das iniciações pré-históricas e do mundo antigo, deu-se numa caverna, a que o hino homérico chamou megaron, uma expressão corrente na Grécia arcaica para designar um espaço privilegiado – fontes primeiras de todas as metamorfoses, esplendores e maravilhas. Refira-se que as “cavernas iniciáticas” foram, na vida cultural de todos os povos ( e ainda hoje no seio de alguns), os únicos centros ou instituições pedagógicas em que se ensinava e se desenvolviam as artes, os saberes e as técnicas. Não foi o próprio Júlio César, já senhor das Gálias, que disse que o deus Hermes-Mercúrio (identificado a uma divindade celta) era o inventor de todas as artes ? Uma vez nascido, Hermes sai da caverna e lança-se na aventura e nos grandes feitos. Este Hermes recém-nascido (protótipo de todos os neófitos renascidos pela graça iniciática dos Mistérios), inventa a lira, que representa as esferas organizadoras do cosmos e do homem, e o papel da música e da dança – porque invoca o poder delas – no cerimonial iniciático. Depois, o fogo sagrado, revelando os meios de o produzir. E ainda o oráculo, privilégio dos iniciados e do sábios de todos os tempos. O mais conhecido dos atributos de Hermes consiste no Caduceu (Caduceum), cuja forma original era um ramo da árvore sagrada. A tradição conta que Hermes encontrou no seu caminho dois répteis que lutavam entre si. De imediato, Hermes separou-os com o seu bastão, tendo-se eles imediatamente enlaçado em torno deste : os dois répteis representavam (e ainda representam na tradição hermética) o cosmos, como sendo composto, na sua aparência e constituição espacio-temporal, por duas forças opostas e complementares. com Hermes, são estas as duas forças, oriundas da ruptura da unidade primordial, que reencontram o seu equilíbrio e harmonia da sua expressão, garças à presença do sagrado (de que ele é o hierofante, por excelência), expresso pela vara iniciática, em torno da qual de enrolaram as duas serpentes que se olham face a face. Mas o deus dos iniciados tornou-se também, pela passagem do sagrado ao profano, o deus dos mercados e do comércio, espaços e actividades em que circulam bens e mercadorias, geradores de riqueza e de bem-estar para a comunidade. esta característica tornou-se predominante no equivalente latino de Hermes, o deus Mercúrio, cujo culto remonta, segundo Ovídio, a tempos muito antigos. De facto, a confraria religiosa de adoradores de Mercúrio era uma das mais antigas de Roma, possuindo ritos e lugares santos na melhor tradição dos santuários de iniciação da Antiguidade. estes locais sacralizados foram quase sempre produtores, no decurso do tempo, de actividades de negócios – sob a forma de viagens, mercados e feiras – sendo então considerada a riqueza como um dos atributos daqueles que, por serem cidadãos e não escravos, eram passíveis de ser iniciados e de terem meios para viajarem em demanda da sabedoria. É preciso recordar que as próprias actividades comerciais, dado constituírem uma forma de circulação vital dos bens da manifestação, dons conferidos pelos deuses aos homens, estiveram sempre associadas aos cerimoniais religiosos, situando-se frequentemente nas proximidades dos templos, santuários e recintos da iniciação. Na época helenística e, portanto, do sincretismo alexandrino de Hermes, este é louvado como benfeitor da humanidade, atingindo deste modo o máximo renome. Hermes tornou-se aquele que sabia traduzir em palavras os conceitos e arquétipos divinos ( Hermès Logíos ) – inspirando a forma dos ritos, das liturgias e da sabedoria. Depois, deslizando para usos mais profanos, é ele o orador, conhecedor das frases e dos gestos social e politicamente eficazes. A influência egípcia ajudou certamente os gregos a formularem a noção de Hermes-Logos, tendo-o assimilado a uma das mais nobres figuras daquele panteão, o deus Thot. Após a fundação de Alexandria, sobretudo, os atributos de Thot e de Hermes encontraram-se frequentemente associados. Foi, aliás, por esta via que Hermes reconquistou muita da sua grandeza original. Segundo alguns, a palavra Thoth significaria coluna. Se esta etimologia for exacta, ela remete para as pedras arcaicas erguidas no neolítico em homenagem ao princípio universal representado por Hermes, os Hermai, de que os monolitos sagrados, de tipo menires, são um. Thot, deus lunar, dividiu o tempo e instaurou o calendário, tornando-se de seguida o ordenador do cosmos. designou aso deuses e aos homens as suas atribuições e fundou cidades estabelecendo-lhes os limites. Ensinou aos escribas as palavras e a escrita sagrada. Enfim, no Egipto ele personificou, como já foi referido, a sabedoria, à qual conduz a iniciação. Thot é também ( à semelhança de Hermes grego ) aquele que manifesta Rá, a luz infinita, e que dele se aproxima os homens. Entre as orações dos fiéis de Thot, existem algumas que se lhe referem como o princípio de revelação, como a voz inefável que fala ao coração silencioso do neófito. Depois de se lhe referir como uma grande árvore de frutos suculentos, a oração/invocação prossegue : “Thot, ó doce fonte que sacias a sede aos que se encontram no deserto ! Ó tu que és inacessível àquele que fala mas estás ao alcance daquele que permanece em silêncio. Quando ( o neófito) se faz silente, ele encontra a fonte ( a fonte da vida imortal)...”. Na melhor tradição iniciática, o silêncio é referido como coisa indispensável, essencial para quem deseja receber a Sabedoria de Thot. Nesta perspectiva, a exigência do silêncio iniciático não constitui um mero pró-forma, o simples evitar das palavras pronunciadas, mas a condição fundamental da mente psicológica. Sem ele, diz-se, nada de espiritualmente significativo pode ser realizado e tornar-se duradouro. Nos séculos II, III e IV da Era cristã, as doutrinas iniciáticas transmitidas no interior das comunidades de Hermes e Thot convergiram para uma grande síntese, perdendo porém muito do seu conteúdo e significado originais, sobretudo quando vazadas nas “revelações” de Hermes Trimegisto, consagradas no Corpus Hermeticum, no qual predominam as especulações alexandrinas. Seja como for, o Corpus faz eco, embora muitas vezes deformado, de doutrinas e práticas iniciáticas que remontam a muitos milhares de anos, afirmando, ainda que de modo fragmentado, o seu fio condutor. Assim, o Hermetismo, tanto o de ontem como o de hoje, tudo faz para transmitir com fidelidade a Tradição imemorial dos Pais (uns conhecidos, a maioria desconhecidos) da filiação, não através de especulações e símbolos de significado perdido mas de uma prática iniciaticamente coerente e eficaz (transmitida oralmente), assente na disciplina ontológica da morte e da ressurreição – de que faz parte a prática do alento e do silêncio – não remetidas para um futuro incerto, para locais ermos ou circunstâncias ideais, mas aqui e agora, na vida de todos os dias. Não surpreende, pois, que o trabalho inciático da filiação hermética seja, sobretudo, um trabalho árduo sobre a percepção e sobre o modo como exercemos a nossa relação mediadora (ou hermética) com o mundo, não podendo por isso ser confundido com outras disciplinas, todas elas com mérito próprio, é certo, mas que lhe são metodologicamente estranhas, como sejam iogas, magismos, ritualismos e ocultismos vários, em geral sistemas excessivamente fechados em si próprios. O Hermetismo, que repousa sobre uma tradição iniciática que unifica, pela via da percepção e da experiência directa, o divino e a natureza, o intuitivo e o racional, a revelação e os sentidos, tem bastante de filosófico, sem dúvida, na medida em que o hermetista é um hermeneuta e também um amigo íntimo da sabedoria e da sageza (expressões humanas de Hermes-Thot), mas também sobretudo muito de operativo, relacionando-se de modo inovador e adequado com as necessidades espirituais de cada época, uma vez que dispõe de saberes e técnicas de (re)ligação ao sagrado, características da filiação hermética, como é o caso da pneumosofia, da astrosofia, da alquimia e da teurgia, todas provenientes de uma tradição de revelação através da “substância” dinâmica das coisas. E tudo, porque na criação dos deuses, o Céu e a Terra são apenas um. V.Q. |
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